1. Introdução
Nas últimas décadas, o ambiente competitivo tem se tornado progressivamente mais dinâmico e complexo, impulsionado por avanços tecnológicos, globalização dos mercados e intensificação da concorrência entre organizações. Nesse cenário, a busca por vantagem competitiva sustentável passou a demandar das firmas não apenas eficiência operacional, mas, sobretudo, a capacidade de gerar, adquirir e utilizar conhecimento de maneira estratégica. Assim, o conhecimento organizacional consolidou-se como um dos principais ativos intangíveis, sendo amplamente reconhecido como base para a inovação, adaptação e desempenho superior das organizações.
Diante dessa perspectiva, a literatura em estratégia e gestão do conhecimento tem enfatizado que as empresas não dependem exclusivamente de suas capacidades internas para inovar, podendo ampliar seu repertório de competências por meio da transferência de conhecimento, tanto em âmbito intraorganizacional quanto interorganizacional. Esse processo torna-se particularmente relevante em contextos marcados por limitações de recursos, elevados custos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e necessidade de respostas rápidas às mudanças do ambiente externo. Nesse sentido, a transferência de conhecimento configura-se como um importante mecanismo para o fortalecimento da capacidade inovadora e para a sustentação da competitividade das firmas.
Entretanto, apesar de sua relevância, a transferência de conhecimento não ocorre de forma automática ou linear, caracterizando-se como um processo complexo que envolve múltiplas etapas e variáveis. Mais do que a simples transmissão de informações, seu êxito depende da capacidade da organização receptora de reconhecer o valor do conhecimento, assimilá-lo, transformá-lo e incorporá-lo às suas rotinas. Esse processo, denominado internalização do conhecimento, representa um aspecto central para a efetiva geração de valor a partir do conhecimento transferido, embora ainda seja relativamente pouco explorado na literatura, especialmente em estudos empíricos e no contexto de relações interfirmas.
Além disso, diferentes fatores podem influenciar o processo de internalização, destacando-se a capacidade disseminativa da organização fonte, a capacidade absortiva da organização receptora e a integração social entre os atores envolvidos. Tais elementos afetam não apenas a qualidade da transferência, mas também a forma como o conhecimento é compreendido, aceito e utilizado, impactando diretamente os resultados organizacionais. Apesar dos avanços teóricos, observa-se que a literatura ainda apresenta lacunas no que se refere à compreensão integrada desses fatores e de sua relação com os resultados efetivos da transferência de conhecimento.
Diante desse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar, a partir de recortes teóricos, os resultados da transferência de conhecimento interfirmas, tomando como foco a internalização do conhecimento pela organização receptora. Para tanto, discute-se o papel da capacidade disseminativa da fonte, da capacidade absortiva da receptora e da integração social como elementos condicionantes desse processo. Ao propor essa análise, o estudo busca contribuir para o avanço teórico no campo da gestão do conhecimento, oferecendo uma visão mais aprofundada sobre os fatores que influenciam a efetividade da transferência de conhecimento e sua utilização como fonte de vantagem competitiva sustentável.
2. Ensaio Teórico
Nas últimas décadas, o debate acerca das fontes de vantagem competitiva tem ocupado posição central nos estudos em estratégia e negócios, especialmente diante de ambientes caracterizados por intensa concorrência e rápidas transformações tecnológicas. Nesse contexto, compreender por que algumas firmas apresentam desempenho superior em relação a outras tornou-se uma questão recorrente na literatura, sendo amplamente reconhecido que a capacidade de aprender, adaptar-se e desenvolver novas competências de forma mais ágil do que os concorrentes constituem elemento-chave para a competitividade organizacional. Assim, o conhecimento organizacional emerge como um recurso estratégico fundamental, capaz de sustentar vantagens competitivas duradouras.
A partir dessa perspectiva, a literatura tem destacado que as firmas não dependem exclusivamente do desenvolvimento interno de conhecimentos, podendo ampliar suas capacidades inovadoras por meio da transferência de conhecimento, tanto no âmbito interno quanto entre organizações. Esse processo assume especial relevância em contextos nos quais as empresas enfrentam restrições de recursos, elevados custos e riscos associados às atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), tornando a aquisição de conhecimentos externos uma alternativa estratégica viável para a inovação e o fortalecimento competitivo. Dessa forma, a transferência de conhecimento passou a integrar de maneira consistente a agenda de pesquisas em organizações, em virtude de sua contribuição para resultados como o desenvolvimento de competências, o crescimento organizacional e o lançamento de novos produtos, processos e serviços.
Entretanto, a transferência de conhecimento configura-se como um processo complexo, que envolve não apenas a movimentação do conhecimento entre fonte e receptora, mas também a capacidade desta última de reconhecê-lo, assimilá-lo, transformá-lo e explorá-lo de maneira efetiva. Nesse sentido, a literatura aponta que o êxito da transferência depende do desenvolvimento de habilidades específicas, tanto por parte da fonte — relacionadas à sua capacidade disseminativa — quanto da receptora, especialmente no que se refere à sua capacidade absortiva. Ademais, fatores relacionais, como a integração social entre os atores envolvidos, têm sido reconhecidos como elementos que podem intensificar ou limitar os resultados desse processo.
Apesar do avanço das pesquisas sobre transferência de conhecimento, observa-se que grande parte dos estudos se concentra nos aspectos processuais da transferência, dedicando menor atenção aos resultados efetivos alcançados pelas organizações receptoras. Em particular, a internalização do conhecimento — entendida como a atribuição de valor, a aceitação e a incorporação do conhecimento às rotinas organizacionais — permanece como uma dimensão ainda pouco explorada empiricamente, sobretudo no contexto de transferências interfirmas. Tal lacuna é ainda mais evidente no cenário brasileiro, onde a produção científica sobre o tema se apresenta incipiente e concentrada em poucos setores e instituições.
Diante desse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar recortes teóricos relacionados aos resultados da transferência de conhecimento interfirmas a partir da internalização do conhecimento pela organização receptora, considerando o papel da capacidade disseminativa da fonte, da capacidade absortiva da receptora e da integração social entre as partes envolvidas. Ao adotar um estudo teórico, a pesquisa busca contribuir para o avanço teórico da literatura, oferecendo subsídios para uma compreensão mais aprofundada dos fatores que condicionam o êxito da transferência de conhecimento e sua efetiva utilização como fonte de vantagem competitiva sustentável.
3. Metodologia
Com o objetivo de analisar recortes teóricos relacionados aos resultados da transferência de conhecimento interfirmas a partir da internalização do conhecimento pela organização receptora, considerando o papel da capacidade disseminativa da fonte, da capacidade absortiva da receptora e da integração social entre as partes envolvidas.
A investigação foi desenvolvida, teoricamente, a partir de um estudo qualitativo e descritivo, que se utilizou de artigos publicados no período de 1990 a 2020, sendo estes norte-americanos, europeus, chineses, tailandeses e brasileiros, cuja abordagem esteja centrada nos constructos: internalização do conhecimento, capacidade disseminativa, capacidade absortiva e integração social.
Os estudos qualitativos têm sido a preferência, especialmente pela complexidade das variáveis envolvidas em transferência de conhecimento (Murovec & Prodac, 2009). Por outro lado, dados qualitativos são relevantes para validar, empiricamente, hipóteses de pesquisa (Hair, Anderson, Tatham, & Black, 2005). Considerando esses benefícios, nesta pesquisa, optou-se pela realização de um estudo (Hair, et al., 2005; Yin, 2005) com vistas a fazer uma leitura aprofundada das variáveis que afetam a transferência de conhecimento.
A pesquisa estudou 202 artigos e buscou traçar para este artigo as linhas gerais sobre tais temáticas, com vistas a abrir portas para as discussões sobre a transferência de conhecimento, bem como para inspirar o desenvolvimento de novos estudos.
Desenvolvimento
Nas últimas duas décadas, uma questão relevante nos círculos acadêmicos e nas organizações relaciona-se ao como e por que algumas firmas apresentam desempenho competitivo superior em relação às outras (Jiménez-Jiménez & Martínez-Costa, 2013; Pérez-Nordtvedt, Khavul, Harrison, & McGee, 2014; Tee & Karney, 1997, 2010). A resposta, na maioria das vezes, é que em mercados caracterizados pela intensa concorrência, torna-se necessário que as firmas se esforcem para aprenderem e desenvolverem capacidades mais apropriadas e mais rapidamente do que suas rivais [16].
Nesses termos, vem ganhando ênfase tanto no campo da estratégia, como dos negócios de forma geral, o papel do conhecimento organizacional como base de vantagem competitiva para as firmas (Easterby-Smith, Lyles, & Tsang, 2008; [16]; [27]).
É por meio do conhecimento que as firmas desenvolvem a capacidade de alterarem a utilização dos seus recursos, criando, integrando ou (re) combinando-os de forma coerente com o ambiente ([7]; Easterby-Smith et al., 2004; [18]; [27]; Rabeh, Jiménez-Jiméne, & Martínez-Costa, 2013). Por exemplo, as empresas que detêm conhecimento tecnológico superior podem criar configurações de recursos para desenvolver e sustentar vantagens competitivas (Leischning, Geigenmueller, & Lohmann, 2014; Teece, 1998).
Por outro lado, a literatura vem apontando que uma firma pode, significativamente, melhorar os seus conhecimentos e a sua capacidade inovadora, aproveitando-se das habilidades dos outros por meio da transferência de conhecimento, que pode acontecer tanto internamente, como entre firmas ([7]; Easterby-Smith, et al., 2008; Pérez-Nordtvedt, et al., 2014), por meio da aquisição de conhecimentos externos complementares que, em determinados casos, coloca-se como a única opção viável para que as firmas obtenham capacidade para realizarem inovações e, por consequência, obtenham vantagens competitivas ([7]; Kremic, 2003; Lane et al, 2006; Mihalache, Jansen, Bosch, & Volberda, 2012; Ripollés & Monferrer, 2013).
Por tais razões, a transferência do conhecimento, nas últimas décadas, passou a integrar a agenda de pesquisas em organizações ([7]; [23]; Mihalache, et al., 2012; Ripollés & Monferrer, 2013), devido à sua contribuição para os resultados das firmas, incluindo desenvolvimento de competências, crescimento nas vendas, bem como lançamento de novos produtos, processos e serviços ([27]; Rabeh et al., 2013) ou mesmo por permitir que firmas com recursos escassos ou avessos às incertezas e riscos do desenvolvimento interno de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) alcancem vantagem competitiva pela aquisição contínua de conhecimentos externos ([1]; Easterby-Smith, Lyles, & Peteraf, 2009; [27]; Szulanski, 1996, 2000; Wijk, Jansen, & Lyles, 2008).
Entretanto, para um eficiente fluxo de aquisição, assimilação, transformação e exploração do conhecimento adquirido fora das suas fronteiras, as firmas precisam buscar desenvolver habilidades para que possam tirar proveito estratégico e sustentável do recurso externo ([10]; Rabeh, et al., 2013; Ripollés & Monferrer, 2013; [30]). Assim, tem crescido substancialmente, na esfera internacional, o volume de publicações na área de negócios incorporando o papel da transferência de conhecimento organizacional como fonte de vantagem competitiva ([14]; Pérez- Nordtvedt et al., 2008; Rabeh et al., 2013). A transferência de conhecimento pode ser entendida, portanto, como processo no qual os atores trocam, recebem e utilizam o conhecimento externo, de forma interativa e dinâmica, possibilitando a inovação e, assim, favorecendo a sua adequação aos desafios do ambiente externo ([1]; Easterby- Smith et al., 2008, Easterby-Smith et al., 2009).
Inicialmente, a transferência de conhecimento ocupou espaços de discussões mais focadas nas investigações de laboratórios governamentais e centros de pesquisa (Bozemana, Rimesb, & Youtieca, 2015). Apenas, após os anos 2000, que se observa na literatura resultados de investigações realizadas por universidades, centros multiorganizacionais ou consórcios. E, somente mais recentemente, é que a pesquisa acadêmica nesse âmbito está dedicando atenção à globalização, associando-o com cadeias de fornecimento e o posicionando como meio de alcance de vantagem competitiva (Audretsch, Lehmann, & Wright, 2014; Bozemana et al., 2015; Pittaway, Robertson, Munir, Denyer, & Neely, 2004).
Os temas dos estudos na literatura aparecem relacionados a alternativas estratégicas, às dificuldades de mercado que emergem junto à globalização e se pautam nas investigações da abordagem conceitual da transferência de conhecimentos, associando-a ao desenvolvimento econômico de países e de negócios, em mecanismos e antecedentes à transferência, vinculando-a a alianças estratégicas ([2]; Bozemana et al., 2015).
Os pesquisadores têm dispensado especial atenção às firmas em fase de internacionalização ou de pequeno e médio porte e concentram-se em variáveis relacionadas à produção e operações (Bozemana et al., 2015; Ho, Liu, Lu, & Huang, 2014). Todavia, as pesquisas são fragmentadas e se propagam de maneira dispersa em grande número de autores, de periódicos e disciplinas, o que tende a implicar necessidade de priorização para que se aprofundem as suas bases de evidências (Pittaway et al., 2004).
As principais investigações originam-se, inicialmente, da América do Norte, notadamente dos Estados Unidos da América, em seguida, da Europa e, posteriormente alcançam países da Ásia. Nota-se significativo destaque do crescimento na produção asiática mais recentemente, sobretudo a chinesa, a indiana e a tailandesa. E as publicações encontram-se, principalmente, Journal Technological Transference; Organization Science, Technovation; The Journal of Higher Education; R & D Management; International Journal of Technology Management; Research politicy; Journal of Business Research; Journal of International Business Research; International Journal Production Economics; Technology Management Innovation; e Journal of Knowledge Management (Bozemana et al., 2015; Pittaway et al., 2004).
Nesses termos, as investigações internacionais relacionadas à temática da transferência de conhecimento publicadas no período de 1990 a 2020 no Portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), fragmentam-se em 23% das produções até o ano de 2000, enquanto no período de 2001 a 2010, constata-se um crescimento que alcança 43%. Todavia, uma maior intensidade pela temática se observa no intervalo de 2011 a 2020 que, em cinco anos, atinge 34% dos estudos.
No Brasil, a produção se revela ainda tímida e centrada, especialmente em entidades de pesquisas governamentais como as desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Cribb, 2009, Vieira Filho, 2015), pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Vieira Filho, 2015) e por universidades ([8]; Closs, Ferreira, Sampaio & Perin, 2012; [13]).
As investigações foram motivadas pelo processo de desenvolvimento econômico internacional, em especial, pelos processos de transferência por investimentos estrangeiros diretos no Brasil, pela necessidade de capacitação para as exportações, bem como pelos avanços técnicos em comunicação (Vieira Filho, 2015). Todavia, atualmente, o foco dos estudos da transferência de conhecimento que emanava da preocupação com o desenvolvimento econômico, desloca para atenções relacionadas à exploração de vantagens competitivas.
As publicações nacionais se encontram, especialmente, em coleções como Directory of Open Access Journals; Scielo Brazil; Scientific Eletronic Library Online; Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal e no Dialnet; como também no periódico Gestão & Produção. Em jornais internacionais aparecem, notadamente, no Technology Management Innovation; Research Politicy; e no Journal of Technology Management.
Sob a perspectiva das publicações ao longo das duas últimas décadas, considerando, da mesma maneira, o Portal de periódicos da CAPES no período de 1990 a 2020, tem-se uma parcela de apenas 3% de produções até o ano de 2000 e 17% de 2001 a 2020.
No entanto, embora a temática da transferência de conhecimento tenha alavancado publicações relacionando-a à sustentabilidade competitiva, trata-se de um dos processos mais complexos, pois implica dispor da capacidade para reconhecer, adquirir e assimilar o novo conhecimento e da habilidade para transformá-lo, explorá-lo e incorporá-lo às rotinas organizacionais [30]. Isso pressupõe, certamente, dificuldades ao longo do processo e, particularmente, interessa aos gestores que objetivam resultados exitosos em transferência de conhecimento (Szulanski, 1996, 2000).
Algumas dessas dificuldades são mais frequentes nas fases iniciais do processo, como é o caso da capacidade da fonte em transferir conhecimento ([14]; [25]; Schulze, Brojerdi & Krogh, 2014; Szulanski & Capetta, 2003; Szulanski, 1996, 2000). Outras dificuldades se evidenciam nas fases intermediárias e finais do processo de transferência como, por exemplo, a capacidade da receptora em absorver o conhecimento ([7]; [19]; Lane, et al., 2006; Van Den Bosch, Wijk & Volberda, 2003; Volberda, Foss & Lyles, 2010; [30]).
Posto isso, torna-se relevante enfatizar, portanto, que a transferência de conhecimento se refere a um processo ao longo do qual devem se gerenciar desde a fase iniciação da transferência, até o alcance efetivo da adoção, por parte da receptora (Kremic, 2003; Szulanski, 1996, 2000). Em outras palavras, trata-se, pois, de um processo de desconstrução e reconstrução do conhecimento na receptora, o que depende, muitas vezes, de tempo, para alcançarem maturidade (Winkelbach & Walter, 2015).
Considerando tal complexidade nos processos, uma questão crítica na literatura diz respeito aos resultados efetivos proporcionados pela transferência de conhecimento. As investigações têm utilizado diversas dimensões com vistas a mensurar tais resultados, mas, muitas vezes, mais centradas nos processos de implementação do que no conteúdo efetivamente apropriado pela receptora. Como exemplo dessas propostas, tem-se a extensão do conhecimento transferido proposto por Lyles e Salk (1996). Similarmente, Zahra, Ireland e Hitt (2000) avaliam a transferência por meio de fatores como tempo, custo e satisfação da receptora com o conhecimento transferido. Szulanski (1996, 2000) adota fatores análogos aos sugeridos por Zahra et al. (2000), utilizando de aspectos como tempo e orçamento, mas apontam um aspecto interessante que é a análise da aderência do conhecimento transferido à receptora como medida de resultado do processo de transferência.
Da mesma forma, Bosch, Wijk e Volberda (2003) analisaram o aprendizado através de duas dimensões: profundidade e amplitude. Enquanto a profundidade denota o quanto o conhecimento transferido enriqueceu o conhecimento pré-existente, a amplitude abarca o que a receptora absorveu de novos conhecimentos (Bosch et al., 2003).
Outros estudos têm avaliado resultados do conhecimento transferido a partir da Visão Baseada em Recursos (RBV). Por essa abordagem, o conhecimento é considerado recurso para explicar a eficiência estratégica das firmas. Todavia, esses estudos centram-se na avaliação de como são obtidos, combinados e aplicados os recursos da firma, definidos como inputs que uma organização detém ou tem acesso ([3]; [7]; [18]; [27]) como, por exemplo, [22] e Bjorkman et al. (2004) que avaliam o resultado da transferência através da sua validade para o destinatário.
Também em uma abordagem amparada na RBV, Pérez-Nordtvedt, Kedia, Datta, & Rasheed (2008) buscaram avaliar o resultado da transferência de conhecimento a partir do desempenho em termos de velocidade, custo, utilidade e compreensão, mas sem, contudo, focalizar exatamente nos resultados efetivos da transferência. Mais raros, ainda, são os estudos que incluem a internalização do conhecimento como medida efetiva desse processo ([12]; Scott & Sarker, 2010; Yeh, Yeh, & Chen 2012).
Como os estudos pouco avançaram nessa temática, a proposta desta pesquisa é analisar os resultados da transferência de conhecimento, considerando-se como e em que condições a receptora atribui valor, internaliza e integra esse conhecimento às suas bases.
Embora a internalização tenha recebido atenção de artigos seminais da área de gestão de conhecimento e inovação como, por exemplo, nos estudos realizados por Nonaka e Takeuchi (1995) que a consideram como importante aspecto da espiral do conhecimento, a internalização havia sido apontada, até então, como um aspecto periférico denotando pouco avanço de investigações nessa temática. Todavia, foi, especialmente, a partir dos estudos de [20], de Kostova e Roth (2002) e, posteriormente, de [12] e de Li e Hsieh (2009) que a internalização emerge como uma perspectiva promissora para a compreensão do êxito em transferência de conhecimento interfirmas. De acordo com esses estudos, a internalização decorre da atribuição de valor ao conhecimento que está sendo transferido à receptora [20], o que facilita a sua utilização estratégica e potencial (Nor, Nor, Daud, & Kamaruddin, 2012; Tang, Mu, & MacLachlan, 2010). O pressuposto é o de que para se obter êxito em transferência de conhecimento deve haver uma profunda compreensão desse conhecimento por parte da receptora, seguido da construção de um “estilo próprio” para esse conhecimento, tornando-o como um objeto de controle (Pierce, Kostova, & Dirks, 2001). E, à medida que ocorre a identificação da organização receptora com o conhecimento, aumenta também o esforço, energia e compromisso, o que se relaciona, simultaneamente, com a percepção de valor atribuído ao conhecimento e com a satisfação do destinatário que refutará resistências à utilização duradoura desse conhecimento (Cummings, 2003, Li e Hsieh, 2009).
A internalização se apresenta, assim, pela valorização e pelo desejo de adoção do novo conhecimento por parte da receptora, o que tende a favorecer que o mesmo possa ser, suficientemente, (re) criado, (re)combinado, convertido, (re)configurado nas suas bases tácitas ([20]; [21]). E ainda, estando o conhecimento internalizado como objeto construído sob orientação de contornos próprios da receptora e, assim, mais adequado para as suas necessidades, pressupõem-se maiores chances da sua utilização para obtenção de benefícios estratégicos [24].
Entretanto, ao tomar a internalização como medida de resultados efetivos em transferência de conhecimento, outras variáveis na literatura emergem, e podem afetar o processo. São essas: a capacidade disseminativa da fonte ([14]; [25]; Schulze, Brojerdi, & Krogh, 2014; Szulanski, 1996, 2000) e a capacidade absortiva da receptora ([7]; [10]; Jansen, et al., 2005; Volberda, et al., 2010; [30]). A capacidade disseminativa da fonte abrange tanto a motivação quanto a capacidade para transferir o conhecimento ([14]; Gupta e Govindaran, 2000; [25]; Schulze, et al., 2014; Szulanski e Capetta, 2003; [29]). Trata-se de uma variável que apresenta propriedades importantes à internalização, posto que é a partir da fonte que se inicia o processo de transferência e, quando se conta com fonte motivada e capacitada para ensinar, é de se esperar um maior fluxo e compreensão de conhecimento, inclusive de natureza tácita (Minbaeva, Pedersen, Bjorkman, & Fey 2003).
Em outras palavras, caso a fonte disponha de habilidade para despertar o interesse da receptora pelo conhecimento que será transferido, visando articular e comunicar esse conhecimento, maiores são as chances de sua utilização, o que se relaciona, tanto com a profundidade, quanto com a capacidade para aplicar esse conhecimento por parte da receptora ([25]; Scott & Sarker, 2010; Tang et al., 2010; Winter, 1987). Da mesma forma, a capacidade absortiva da receptora é outra variável importante, pois mesmo que se disponha de uma fonte com adequada capacidade para transferir conhecimento, a transferência de conhecimento não ocorrerá, caso a receptora não consiga adquirir, assimilar, transformar e aplicar o conhecimento ([7]; [19]; Lane, et al., 2006; Van den Bosch, et al., 2003; Volberda, et al., 2010; [30]). E, ainda, quando a receptora dispõe de capacidade absortiva para reconhecer o valor e compreender profundamente o conhecimento transferido, encontra-se maior possibilidade de se aceitar e permitir que esse seja incorporado às suas bases tácitas e, em última instância, assumindo a forma de uma nova competência, rotina, processo, procedimento ou produto ([12]; Scott & Sarker, 2010).
É possível identificar, ainda, na literatura, a existência de variáveis que podem moderar os efeitos da capacidade disseminativa da fonte e da capacidade absortiva da receptora. Baron e Kenny (1986) definem que uma variável moderadora afeta a direção e/ou a força da relação entre a variável independente e a variável dependente. A integração social entre fonte e receptora do conhecimento, inclui-se, nesse caso, quando se estuda a transferência de conhecimentos a partir da sua internalização. A inclusão dessa variável deriva da argumentação de que, quanto maior a frequência de contato entre fonte e receptora, maior a confiança, o compromisso e o comprometimento que se estabelece entre as partes, o que facilita a transferência de conhecimentos entre os pares ([5]; Bjorkman, Stalh & Vaara, 2007; Wijk et al., 2008). A razão é que a integração favorece, por um lado, a geração de uma linguagem comum entre as partes e, de outro, a intensificação da vontade de aprender por parte da receptora e de poder confiar no parceiro (Mimbaeva & Michailova, 2003; [29]), o que contribui para a absorção e transformação do conhecimento transferido.
Ademais, a integração social entre os atores em uma transferência permite que a capacidade disseminativa da fonte se intensifique, uma vez que ao conhecer melhor a receptora, a fonte terá maiores possibilidade de despertar o seu interesse (Mimbaeva & Michailova, 2004; [29]) e de tornar o conhecimento mais coerente com a base prévia de conhecimento da receptora ([7]; [10]; [19]; Volberda, et al., 2010; [30]).
Com a premissa de que somente quando a receptora internaliza o conhecimento é que esse pode ser suficientemente recriado e, em última instância, ser utilizado de forma efetiva, propõe-se a realização de um estudo de caso de natureza mista cuja finalidade é analisar os resultados da transferência de conhecimentos interfirmas a partir de sua internalização pela receptora.
Diante do exposto, pode-se apreender que a capacidade disseminativa da fonte e a capacidade absortiva da receptora, bem como a integração social são variáveis que podem afetar a internalização do conhecimento pela receptora, o que, por sua vez relaciona-se diretamente com a intensidade de conhecimento transferido, o que pode ser medido, por exemplo, pelo nível de aplicação do conhecimento no cotidiano produtivo.
4. Conclusão
O presente artigo teve como propósito analisar, a partir de recortes teóricos, os resultados da transferência de conhecimento interfirmas, tomando a internalização do conhecimento pela organização receptora como eixo central de análise. Ao longo do estudo, evidenciou-se que, em ambientes competitivos e dinâmicos, o conhecimento organizacional assume papel estratégico fundamental, sendo a transferência de conhecimento um dos principais mecanismos por meio dos quais as firmas ampliam suas capacidades inovadoras e sustentam vantagens competitivas.
A análise da literatura revelou que a transferência de conhecimento constitui um processo complexo e multifacetado, que extrapola a simples movimentação de informações entre organizações. Os estudos examinados indicam que os resultados efetivos desse processo estão diretamente associados à capacidade da organização receptora de atribuir valor, compreender profundamente e incorporar o conhecimento às suas rotinas, configurando o processo de internalização. Nesse sentido, a internalização emerge como uma medida mais consistente dos resultados da transferência de conhecimento, quando comparada a abordagens centradas exclusivamente em indicadores operacionais, como tempo, custo ou volume de conhecimento transferido.
Os recortes teóricos analisados também demonstram que a internalização do conhecimento é influenciada por diferentes variáveis organizacionais e relacionais. A capacidade disseminativa da fonte destaca-se como elemento inicial e estruturante do processo, na medida em que a motivação e a habilidade para articular e comunicar o conhecimento aumentam as possibilidades de compreensão e utilização por parte da receptora. De forma complementar, a capacidade absortiva da organização receptora revela-se essencial para o reconhecimento do valor do conhecimento transferido, bem como para sua assimilação, transformação e aplicação efetiva.
Adicionalmente, a literatura evidencia que a integração social entre fonte e receptora atua como um fator moderador relevante, ao favorecer a construção de confiança, o compartilhamento de uma linguagem comum e o comprometimento entre os atores envolvidos. Tais elementos contribuem para reduzir resistências, intensificar o fluxo de conhecimento e ampliar as chances de que o conhecimento transferido seja efetivamente internalizado e convertido em competências organizacionais.
Do ponto de vista teórico, o artigo contribui para o avanço das discussões sobre transferência de conhecimento ao sistematizar e integrar diferentes abordagens que tratam da internalização como resultado central desse processo, articulando-a com pressupostos da Visão Baseada em Recursos e das capacidades dinâmicas. Ao enfatizar a internalização como condição necessária para a geração de valor estratégico, o estudo amplia a compreensão sobre os mecanismos que sustentam a vantagem competitiva das firmas.
Por fim, considerando o caráter teórico da investigação, destaca-se a necessidade de que pesquisas futuras avancem na validação empírica das relações discutidas, explorando diferentes contextos organizacionais, setores e arranjos interorganizacionais. Estudos quantitativos, qualitativos ou de natureza mista poderão aprofundar a compreensão sobre como a capacidade disseminativa, a capacidade absortiva e a integração social influenciam a internalização do conhecimento ao longo do tempo. Ainda assim, acredita-se que as reflexões apresentadas oferecem contribuições relevantes para o campo da gestão do conhecimento e para a compreensão dos resultados efetivos da transferência de conhecimento interfirmas
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